Multiculturalismo, harmonia social e o evangelho
Uma releitura sobre o tema
CULTURA E COTIDIANOTEOLOGIA
4/7/20263 min read


Na época da faculdade, lembro bem que a disciplina multiculturalismo foi um grande desafio, frequentei em turma mista, haviam estudantes de Serviço Social, Pedagogia e eu. Nessa época, dando os primeiros passos no ambiente acadêmico, criei um “montulho” de informações para rechaçar qualquer tipo de apreço pelo tema. Recentemente fiz uma viagem em família para visitar alguns pontos da Catalunha. Pela graça de Deus, os entulhos teológicos foram consideravelmente removidos.
O multiculturalismo observado na Catalunha é uma experiência concreta, que ultrapassa o campo das ideias e se instala no cotidiano. Em uma mesma “terraza”, povos distintos compartilham o espaço com naturalidade: franceses, espanhóis, asiáticos, africanos, leste-europeus, latinos e tantos outros. As línguas se misturam como uma rádio mal sintonizada, enquanto estilos e hábitos formam uma obra de arte viva. Não há tensão evidente, nem disputas visíveis por espaço. O ambiente flui com uma leveza que sugere ordem, ainda que não seja fácil explicá-la de imediato. Essa convivência aponta para uma forma de harmonia social que não depende da uniformidade. A diversidade, longe de fragmentar o ambiente, parece enriquecê-lo. Há um equilíbrio sustentado por limites implícitos, uma espécie de ética silenciosa que regula o convívio. Isso revela que a pluralidade, quando acompanhada de certos fundamentos comuns, pode gerar estabilidade e até beleza nas relações humanas.
À luz das Escrituras, essa diversidade não deve ser vista como um desvio, mas como parte do próprio desdobramento da história humana sob a soberania de Deus. Na pregação do areópago, Paulo afirma que Deus fez de um só todos os povos, determinando os tempos e os limites da sua habitação. A multiplicidade de nações, culturas e línguas não escapa ao governo divino. Há, portanto, uma intencionalidade na diversidade que observamos. Ela carrega, em si, vestígios da criatividade do Criador.
No entanto, o mesmo texto deixa claro que essa diversidade tem um propósito: que os homens busquem a Deus. A pluralidade não é um fim em si mesma. Ela aponta para algo maior. Esse ponto se torna ainda mais evidente quando se considera que, dentro desse cenário aparentemente harmonioso, coexistem sistemas de fé que não apenas diferem, mas em muitos casos se opõem ao Evangelho. A harmonia social, portanto, não pode ser confundida com unidade espiritual.
Essa distinção é fundamental. O multiculturalismo pode organizar o convívio humano, mas não resolve a questão da verdade. Ele permite coexistência, mas não produz reconciliação com Deus. Na carta aos efésios, Paulo apresenta uma realidade mais profunda: a verdadeira paz não é apenas a ausência de conflito entre povos, mas a reconciliação de todos em um só corpo, por meio de Cristo. Ele é nossa paz, aquele que derruba a parede de separação e cria um novo homem.
Os pontos de convergência que sustentam o multiculturalismo no nível social, portanto, não são suficientes no nível espiritual. Valores como respeito e ordem são importantes, mas não são o fundamento último da unidade humana. A convergência definitiva é cristológica. É em Cristo que povos distintos encontram não apenas convivência, mas reconciliação verdadeira.
Essa realidade alcança seu ápice na visão dada à João, na ilha de Pátimos, onde uma grande multidão de todas as nações, tribos, povos e línguas está diante do trono de Deus. A diversidade não é anulada, mas redimida e unificada em adoração. Não há apenas coexistência pacífica, mas unidade plena em torno de um centro comum. O multiculturalismo encontra, nesse quadro, sua forma final e perfeita.
A experiência observada na Catalunha pode ser entendida, então, como um reflexo parcial de uma verdade maior. Ela revela algo da ordem possível entre os homens e aponta para a beleza da diversidade criada por Deus. Mas também evidencia seus próprios limites. Sem um ponto de convergência que vá além do social, essa harmonia permanece incompleta.
O Evangelho não se apresenta como mais uma voz nesse rádio mal sintonizado do multicultural, mas como o eixo que dá sentido a ele. A diversidade encontra sua legitimidade na criação, mas seu propósito na redenção. O que hoje se manifesta como convivência funcional aponta para um futuro onde haverá unidade plena. Até lá, o multiculturalismo pode encantar e ensinar, mas é em Cristo que ele encontra seu propósito último
